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Há um novo estilo poético dominante entre os jovens aspirantes a artistas. Aquele estilo onde não há rima nem versos, apenas frases fracas numa prosa paragrafada mal construída. Contudo, se essa gente tem esperanças que as suas obras venham a ser valorizadas, no mínimo a título póstumo - tal como um Cesário Verde - então eu voluntario-me já aqui para me encarregar dos procedimentos inerentes à cessação existencial desses poetas.

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escarnecido às 03:09

Certa vez visitei um perfil no hi5 e decidi encaminhar-me rumo ao respectivo álbum de fotografias, decisão essa que mais tarde enfiei no arquivo mental dos arrependimentos. Deparei-me então com uma foto do autor do perfil, que provavelmente se auto-fotografou - considerando que um dos braços estava desconfortavelmente esticado passando a jusante da objectiva, e em baixo a legenda «Eu». Até aqui nada de especial, tirando a genialidade suprema da descrição textual, mas ao clicar na foto nº 2 aparece-me a mesma personagem e o mesmo cenário - talvez com uma variação subtil de meio grau no ângulo da fotografia, e a legenda «Eu outra vez». Agradeço esta segunda oportunidade caro colega, pois da primeira vez tinha ficado algo indeciso relativamente ao que os meus olhos tinham registado. Tenho que admitir também que este tipo de legenda demonstra uma solidariedade exemplar para com aqueles que têm uma dificuldade inata em interpretar à primeira certo tipo de estímulos visuais. Nesses casos é sempre bem-vindo um apoio textual bem explícito para situar devidamente as coisas.

 

Mas há outro tipo de fotografias que merece menção, nomeadamente daqueles indivíduos que, depois de duas semanas no ginásio, sentem que chegou a altura ideal de exibir de forma discreta os volumosos bíceps. A forma casual mais utilizada para o fazer é auto-fotografarem-se, com a cabeça apoiada num dos braços, cujo músculo, por acaso e sem qualquer intenção, fica bem visível no retrato enquanto o dono exerce dissimuladamente uma pressão exacerbada para bombear algum sangue para o respectivo bícep e demonstrar-lhe algum volume. Isto tudo, claro, é feito por mera casualidade, como quem dá a entender que a intenção era mostrar a cor dos olhos.

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escarnecido às 00:08

Admiro Cavaco Silva e os seus poderes hegemónicos. Quando há um conflito, um problema, uma qualquer situação de emergência, eis que surge o Sr. Presidente da República na televisão para solucionar as questões, sacando do bolso, para estupefacção geral, um palavreado verbalmente infalível: «Espero que sejam desenvolvidos mecanismos com vista ao apuramento de responsabilidades relativamente a esta matéria». Nada mais diz, para quê? E se alguém insistir, ele tem outro bolso, ao qual vai buscar a derradeira frase, que mata de vez pela raiz aquilo que possa ter sobrevivido à primeira investida: «Não faço mais comentários sobre esta matéria». E quantas vezes Portugal já emergiu das cinzas graças a este heróico pragmatismo...

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escarnecido às 20:39

Se por exemplo alguém nos apresenta um amigo, nesse preciso momento torna-se habitual e quase obrigatório realizar algum tipo de interacção social, tal como um aperto de mão, como forma de demonstrar simpatia e prazer em conhecer, ainda que seja tudo geralmente uma fachada falsa. Mas a situação verdadeiramente desafiante, que não deveria ser desejada nem aos nossos piores inimigos, ocorre quando essa pessoa que nos está a ser apresentada é um(a) Emo. Há várias etapas do processo a considerar. Em primeiro lugar é necessário ultrapassar o mais rapidamente e da melhor forma possível o choque estético inicial, ainda que seja sempre penoso tentar ignorar as cinco linhas de eyeliner preto, os ferros espetados no lábio inferior e o cabelo preto-alcatrão oleosamente colado à testa. Os escassos segundos seguintes terão que ser sabiamente utilizados para identificar o género da espécie, neste caso se é macho ou fêmea, pois não queremos dar dois beijinhos na face de um suposto homem. E esta revela-se a etapa mais inatingível do processo. Um dos truques seria pesquisar a olho nu o queixo do indivíduo em busca de capilares pélvicos com vista a determinar se é macho, no entanto o índice de Emos masculinos com resquícios de pêlo facial é tão reduzido que torna este truque inútil à partida.
Outro método seria obrigar, de alguma maneira, que a espécie abrisse a boca e proferisse algumas palavras. Isto possibilitaria, caso esta cooperasse e fornecesse uma resposta, escutar o timbre vocal do indivíduo e assim obter uma probabilidade mais concisa relativamente ao sexo dessa pessoa. No entanto os dados obtidos através da audição do timbre vocal necessitam sempre de serem cruzados com outras informações com vista a uma decisão precisa.
Quando todo o processo está concluído podemos avançar então com uma atitude comportamental para um cumprimento adequado. Contudo, o tempo decorrido em todo este procedimento, desde o momento do primeiro choque visual até ao nosso cumprimento, não poderá ultrapassar os cinco/sete segundos, daí esta relação estímulo-comportamento no que toca a Emos continuar a ser matéria para profissionais.

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escarnecido às 01:32

Sobre o hip-hop

13.02.08
Mas afinal o que é o hip-hop? Pergunto eu. Há sempre alguém que responde algo como «O hip-hop não é só um estilo de música, é um estilo de vida», o que me obriga a falar um pouco com essa pessoa sobre o significado da retórica.

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escarnecido às 00:42

Recomendo vivamente a visualização da série portuguesa "Bairro da Fonte" que passa na Sic Mulher. Na última vez que tive o orgulho de presenciar a transmissão de um episódio, uma das cenas ficou-me tão estranhamente cravada na memória que ainda hoje procuro a explicação para tal brilhantismo argumentativo. Tratava-se de uma cena íntima no quarto, entre um rapaz e uma rapariga. Ambos se encontravam deitados na cama quando a rapariga decidiu iniciar uma série de carícias pelo corpo do jovem, enquanto lhe colava beijos na cara, sabiamente ensaiados. Contudo, o rapaz não parecia estar a apreciar tal interacção. E agora passo a transcrever fielmente o brilhante guião da cena, que certamente falará por si:

- Então, não estás a gostar?
- Não, não é isso…
- Então o que foi?
- Acho… acho que me vai sair o coração pelo peito.

Tinha previsto uma lista de inúmeros componentes orgânicos que poderiam ser expelidos do corpo do rapaz naquele momento íntimo, mas certamente o miocárdio não era um deles. Brilhante.

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escarnecido às 23:36

Quando por exemplo ligamos a uma pessoa e a convidamos a vir a nossa casa, por que razão é necessário essa pessoa, no momento de nos entrar porta adentro, debitar a questão «Posso?» mesmo antes de fazer tocar um dos pés no piso anfitrião? De imediato dá logo uma vontade de dizer algo como «Olhe, telefonei-lhe, convidei-o, abri-lhe a porta, mas agora que pondero melhor não sei se será boa ideia prosseguirmos. Se calhar ficamos por aqui e debatemos as questões na soleira desta porta, que tal?». Mas claro a bravura fica encravada e o que geralmente sai é um «Faça favor» ao que a pessoa responde prontamente «Então com licença» e avança com um cuidado tão absurdamente idiota como quem não quer fazer estalar o chão de mármore. E mais uma vez os fait-divers comunicativos ergueram a taça...

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escarnecido às 20:59




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