Domingo, 28 de Setembro de 2008
Sobre a conveniência interesseira

A simpatia ou boa educação são, frequentemente, confundidas com a conveniência interesseira. Isto é evidente no início de certas conversações. «Olá, então como estás? Tudo bem contigo?». Este tipo de introdução é típico de alguém que prepara terreno para uma solicitação de alguma espécie. Se esse alguém fosse um amigo no real sentido do termo, certamente não faria tais perguntas existenciais, que unicamente revelam uma realidade de distanciamento entre ambas as partes. E depois de a ingenuidade ceder ao logro, segue-se então o inevitável «Olha, já que estou a falar contigo, precisava de...». Mesmo sendo ancestral, esta prática continua a verificar-se de forma continuada e inconsciente, como se de algo vitaliciamente inovador se tratasse.



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Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008
Sobre as proibições

Os portugueses gostam de ser interditados a determinadas condutas de forma a poderem demonstrar avidamente a sua capacidade inata para produzir indignação. Como exemplo, seria desadequado desenvolver em Portugal uma campanha de sensibilização para a utilização de transportes públicos. Por ser um acto não invasivo à liberdade do português, este sentir-se-ia tristemente frustrado por não poder expressar a sua fúria contra tal medida. A solução está nas sábias palavras proferidas por um popular no dia europeu sem carros: «Deviam proibir para sempre o trânsito na cidade de Lisboa». Para quê incitar a uma mudança de mentalidades, quando proibir é tão mais proveitoso para a felicidade de todos?



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Terça-feira, 9 de Setembro de 2008
Sobre a Selecção Nacional

É evidente que a Selecção Nacional iniciou uma nova fase com a entrada de Carlos Queiroz, não a nível de tácticas ou esquemas de jogo mas sim a nível de metáforas. O novo seleccionador já demonstrou o seu dom natural em misturar conceitos durante as conferências de imprensa, talvez com um experiente e oculto objectivo de baralhar antecipadamente o adversário. Para quê dizer cruamente que os três pontos se ganham quando se regista uma vitória no final do jogo se parece bem mais perspicaz referir que «não existem cartões de crédito no futebol que nos permitam em antecipação adquirir os três pontos e pagar depois». Para quê dizer que é impossível ganhar todos os jogos quando a frase «o sucesso não é uma linha recta. Pela frente vêm alguns zigue-zagues» se enquadra tão melhor. Para quê dizer que a equipa não terá sempre os mesmos jogadores quando se pode dizer que «a selecção não é uma casa nem um espectáculo com lugares marcados». Portugal faz história no futebol oratório.



publicado pelo Escarnecedor às 21:36
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